Fórum Social Mundial inicia em Porto Alegre
Atividade de avaliação dos 10 anos do Fórum Social Mundial iniciou com a tradiconal marcha dos movimentos sociais. O encontro se estenderá até o próximo dia 29 de janeiro e acontece não só em Porto Alegre mas em diversas cidades da região metropolitana. Acompanhe aqui um relato dia a dia de algumas das atividades do FSM.
Dia 1 (25 de janeiro)
Nada é mais a cara do Fórum Social Mundial do que a Marcha dos Movimentos Sociais. Como sempre, em Porto Alegre, ela foi realizada abaixo de um sol escaldante. Mas o sol não foi suficiente para diminuir os ânimos das 30 mil pessoas, segundo os organizadores, que participaram da abertura. Antes da marcha os afroumbandistas realizaram uma caminhada contra a intolerância religiosa, que saiu a frente da caminhada do FSM.
A marcha fez um percurso diferente esse ano. Ao invés de terminar no anfiteatro Por do Sol, local onde se realizaram os shows nas outras edições em Porto Alegre, a caminhada seguiu até a Usina do Gasômetro. A noite encerrou com shows dos mais variados estilos como Renato Borghetti, Teatro Mágico, Papas da Língua e Marcelo D2.
Pelo site oficial do FSM (http://fsm10.procempa.com.br/wordpress/) é possível acompanhar ao vivo os seminários de avaliação do Fórum que acontece na Usina do Gasômetro.
Dia 2 (26 de janeiro)
O segundo dia de atividades do FSM iniciou com a discussão sobre a Crise do Capitalismo. A mesa "Conjuntura Social Hoje" debateu o porque os movimentos sociais e os governos não conseguiram apresentar alternativas concretas para superar a crise sistêmica do capitalismo. Para Edgardo Lander da Universidade Central da Venezuela o capitalismo é incompatível com a preservação da vida. "Hoje vivemos uma exigência radical de reverter essa lógica de crescimento e promover uma radical redistribuição do acesso dos seres humanos aos bens comuns”, afirma Edgardo. A preocupação do professor da UFRGS, Paulo Vizentini, é que a esquerda, mesmo que diga que um outro mundo é possível ainda não sabe que mundo é esse. “Nos últimos anos, começou-se a resgatar o conceito de desenvolvimento e a promover uma maior intervenção do Estado, com a volta das políticas sociais, que haviam sido abandonadas nos anos 90. No entanto, ao olharmos para o quadro em âmbito global, os avanços são menores do que o desejado”, acredita Vizentini.
O sociológo Emir Sader foi taxativo em relação aos projetos de desenvolvimentos atuais. “Hoje só existe um grande projeto de sociedade de consumo. Então esta decadência do capitalismo é relativa, lenta, sem que surja no horizonte uma alternativa. E o capitalismo não terminará se não houver uma alternativa", finaliza.
Emir Sader ainda pondera que o Fórum Social Mundial deve discutir temas centrais de alternativas e não se limitar a discutir apenas questões sociais. "Quem quiser discutir superação do capitalismo sem discutir o Estado que queremos estará girando em falso. A resistência eterna é o caminho da derrota, e o Fórum tem que se abrir para este processo senão ficará para trás. Tem que se reciclar e aderir a esta dinâmica”, conclui.
Marcha Mundial de Mulheres no Acampamento de Juventude
Uma oficina da Marcha Mundial de Mulheres aconteceu no ínicio da tarde dessa terça feira no Acampamento de Juventude. O objetivo da atividade além de discutir as questões relativas ao aborto, ao uso do corpo da mulher como mercadoria, entre outros temas tratados pela Marcha, foi o divulgar a plenária que acontecerá na quarta feira na cidade de Gravataí.
A plenária será organizadora para Terceira Ação Internacional da Marcha das Mulheres, que acontecerá entre os dias 8 e 18 de março onde mulheres de todos os cantos do Brasil. Durante dez 10 elas percorrerão o trajeto entre Campinas e São Paulo.
A foto ao lado é da batucada feminista, uma das atividades realizadas durante a oficina.
Foto: Layana Lösse
Lula no Fórum
Foi a quarta vez que o presidente Lula veio ao Fórum Social Mundial na condição de presidente. Em Porto Alegre ele participou das edições de 2003 e 2005 e no ano passado ele esteve em Belém. Essa quarta presença de Lula, a última como presidente, foi marcada por uma espécie de balanço de seu governo. A atividade contou com também com a participação de Candido Grzybowsk, do IBASE, Artur Henrique da CUT e Lilian Celiberti da Articulación Feminista Marcosur (Uruguai).
Um fato marcante na presença de Lilian é que ela foi uma das uruguaias que foi sequestrada em Porto Alegre pelo governo ditatorial de seu país, em um caso que teve grande repercursão na época. Lilian, inclusive, relembrou do fato e agradeceu a todos que deram repercursão ao acontecido e que provavelmente evitaram seu desaparecimento. Juntos os três participantes da mesa propuseram quatro questões para Lula: O papel do Brasil no Haiti; Questão ambiental pós Copenhague; Interligação Cultural da América Latina e o Debate sobre os Direitos Humanos
Lula iniciou sua fala dizendo que iria à Davos com o orgulho de ter o que mostrar, "e com a missão de dizer que se o mundo desenvolvido tivesse feito a lição de casa na economia, não teríamos tido crise", afirmou Lula. Ele ainda lembrou que havia "medo", em 2003, que ele não conseguisse governar o país. "Agora vou dizer que um torneiro mecânico foi quem mais criou Universidades e Escolas Técnicas no país", completou.
Sobre o Haiti, Lula disse que o que aconteceu lá foi a falta de respeito ao direito sagrado de cidadania. Ele acusou os países "doadores" de reterem recursos que foram prometidos ao Haiti e que o terremoto talvez cause "vergonha nos países que poderiam ter feito algo". O presidente anunciou também sua visita ao país caribenho e a construção, dentro de um mês, de uma unidade de pronto atendimento para auxiliar a população. Ele ainda sugeriu que o Fórum Social Mundial realizasse uma campanha de 1 ano em solidariedade ao povo haitiano.
No tema questão ambiental Lula afirmou que o governo apresentou uma proposta concreta, em Copenhague, que assustou os países ricos. "Não aceitamos mais que coloquem o dedo sujo de óleo no combustível limpo produzido neste País", disse.
Em outro momento o presidente afirmou que a América Latina vive um excelente momento graças a uma série de governos progressistas que estão dando passos importantes para o avanço da democracia.
Lula ainda afirmou que o Fórum ainda está com todo o vigor e com possibilidade de crescer. Segundo o presidente o evento "tem que manter a utopia do impossível, ter vontade, coragem e mostrar trabalho", apontou.
A atividade reuniu mais de 10 mil pessoas que enfrentaram horas na fila sob um calor de 30 graus.
Dia 3 (27 de janeiro)
Dois debates foram centrais para a juventude no terceiro dia do Fórum Social Mundial. Na Tenda da Paz, próximo ao Gasômetro houve a mesa de debates “O Pré-Sal e o financiamento da Educação no Brasil", promovida pela UNE, UBES e ANPG. Compuseram a mesa de debates João Moraes, da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Raul Bergaman, da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet), Igor Felippe dos Santos, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Cristina Castro, da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), Hugo Valadares, presidente da ANPG, Rodrigo da Luz de Jesus e Henrique Porto Lusa, coordenadores gerais da recém fundada União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Sul (UEE-RS), Jorge Abraão, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o presidente UBES, Yann Evanovick e o presidente da UNE, Augusto Chagas.
Houve um grande consenso entre os participantes embora os representantes do MST, FUP e Aepet tenham defendido que os movimentos sociais deveria defender uma bandeira única de desenvolvimento sustentável, a partir das verbas do Pré-Sal, do que definir bandeiras de causas específicas, como a educação. Entretanto o representante do MST entende que a lógica está correta para que as verbas do Pré-Sal "não virem um segundo orçamento da União a ser disputado".
O presidente da UNE, Augusto Chagas, reforçou a intervenção do representante do MST de que os movimentos sociais devem sair às ruas para a defesa desses recursos. Para Augusto, "essa riqueza tem que ser carimbada pelos interesses nacionais e deve ser repartida entre a maioria da população”.
Fonte: Luana Bonone
Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres
Esse foi o tema que mobilizou mulheres e homens de todo o país em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre. A plenária foi realizada na Câmara de Vereadores. Cerca de 400 pessoas debateram os principais problemas que as mulheres enfrentam e uma agenda comum.
Nalu Farias, da Marcha Mundial de Mulheres, falou da terceira ação mundial da Marcha, que no Brasil acontecerá no mês de março. A atividade brasileira será uma marcha entre as cidades de Campinas e São Paulo. Nalu explica que as atividades esse ano são em torno dos quatro eixos do movimento: trabalho e autonomia econômica das mulheres, violência, bens comuns e serviços públicos e paz e desmilitarização.
A luta contra a violência também é uma preocupação do movimento estudantil. É o que conta a coordenadora de comunicação da UEE/RS, Cristiane Giaretta. Ela conta que uma das lutas nas universidades é por assistência estudantil, principalmente as creches para mães estudantes, "muitas mulheres trancam seus estudos por não ter onde, ou com quem, deixar seus filhos", comenta.
A presidente da Associação Comunitária Amigos do Bairro Bom Sucesso, Neusa Maria Sandrin, diz que o FSM reforça as ações locais. Ela fala que as mulheres mais carentes são as que mais sofrem com a violência, principalmente a doméstica.
Depois dos debates a Batucada Feministas percorreu as ruas da cidade de Gravataí.
Veja as fotos do evento. (crédito: Cíntia Barenho)
Fontes: Prefeitura Municipal de Gravataí e Portal Vermelho
Foto: Renato Araujo/ABr
Dia 4 (28 de janeiro)
O Acampamento Internacional de Juventude, AIJ, teve duas atividades que mobilizou o interesse dos militantes da Kizomba no dia de hoje. A primeira foi a posse da nova diretoria da UEE/RS - Livre. A atividade foi realizada na tenda Dr. Juca e contou com a presença de inúmeras personalidades da política gaúcha e até uma representação internacional. Inicialmente a proposta era realizar um resgate da reconstruçaõ da UEE pós 1964. Esse resgate ficou a cargo do Deputado Federal Pepe Vargas, que foi diretor da entidade de 1982 a 1984 e por Davi Fiacovi que foi o primeiro presidente da reconstrução em 1979.
Juntaram-se a eles posteriormente o Deputado Estadual Ronaldo Zulke, a Superintendente do GHC Jussara Cony, o prefeito de Novo Hamburgo Tarcísio Zimmermann, o ex-governador Olívio Dutra, o Deputado Federal Beto Albuquerque, a Deputada Federal Manuela D'Avila, o Ministro da Justiça Tarso Genro e o Senador Uruguaio pela Frente Ampla Carlos Baraiba. Para ver o relato completo dessa atividade veja a matéria que já publicamos no site.
Seminário de avaliação do AIJ
Olívio Dutra e Carlos Baraiba participaram também do painel “Avaliação e projeção dos Acampamentos Intercontinentais da Juventude pelo mundo”. O ex-governador Olívio Dutra falou sobre a sua experiência nos 10 anos de Fórum Social e a relação do evento com a política. “O FSM tem uma pluralidade que é a sua grande riqueza. Ele expressa a vivência de povos vindos de diferentes lugares do Globo que, justamente, discutem o enfrentamento ao neoliberalismo e as consequências do capitalismo”, falou Olívio.
O Senador Carlos Baraiba defendeu a importância de resgatar o acúmulo do Fórum de São Paulo, que em 1997 realizou suas atividades na cidade de Porto Alegre. Para isso ele se comprometeu a realizar um painel sobre o tema na próxima edição do AIJ.
Além de Olívio e Carlos falaram representantes de movimentos organizados no acampamento e de pessoas que trabalharam na organização de outras edições do mesmo.
Homenagem a Daniel Bensaid
No final da tarde desse dia ocorreu o Tributo ao irredutível Daniel Bensaïd: “Um revolucionário de todo nosso tempo”. A homenagem reuniu militantes das diversas tendências trotskistas, intelectuais, trabalhadodres e estudantes. O deputado Raul Pont, abriu os pronunciamentos, seguido de Pedro Fuentes, da Argentina, Chistophe Aguiton (Attac França), João Machado (Brasil), Flávio Koutzi e Éric Toussanit (França) que dividiram a tribuna prestando homenagem, revelando aspectos importantes da relação com Bensaid, sua obra, sua militância e fatos que marcaram a convivência com este revolucionário.
Dia 5 (29 de janeiro)
O último dia de atividades do Fórum Social Mundial foi dedicado as sistematizações de propostas. Às 11 horas, no Gasômetro, realizou-se a Plenária dos Movimentos Sociais. O objetivo era construir uma série de propostas que pudessem servir de orientação, aos movimentos sociais, das discussões do Fórum Social Mundial. A rotina de discursos só foi quebrada com a chegada de um grupo de manifestantes da UNB e da UFSM que pediam a saída dos Governadores Arruda (DF) e Yeda (RS).
Após a leitura do documento houve uma marcha até a Assembleia Legislativa do Estado. Veja algumas sugestões apresentadas:
- Formação de uma rede colaborativa de movimentos sociais para estimular a troca de experiência e permitir organizações que trabalham pela mesma causa, em diferentes locais, se articularem em torno de uma determinada luta;
- Adotar uma metodologia que inclua nos painéis, além de intelectuais, pessoas que estão vivendo os problemas ou as soluções apresentadas ;
- Investir para que a infra-estrutura do Fórum reflita minimamente o que está sendo discutido. Para isso, banir a participação de empresas transnacionais no evento e no lugar delas, usar serviços locais e economia solidária. Assim, o Fórum falará não só para seus participantes como para toda a sociedade, apontando alternativas concretas para um outro mundo possível;
- Trazer o acampamento da juventude para o centro das discussões;
- Incluir discussões sobre os seguintes temas: direito à comunicação e mídias alternativas; o exercício do poder em seus diferentes aspectos; relações de trabalho, que devem ficar ainda piores depois da crise financeira; saúde do trabalhador; posturas pessoais;
- Estimular mudanças no comportamento dos indivíduos;
- Tirar uma posição do Fórum a respeito das mudanças climáticas: queremos um desenvolvimento econômico que inclua a todos e gere trabalho ou vamos defender o crescimento zero para reduzir as emissões?
- Melhor as conexões com a China e trazer o país de fato para as discussões do fórum;
- Incluir uma variedade maior de profissionais, como os de tecnologia, no debate;
- Criar espaços para sistematizar as denúncias;
- Melhorar a infra-estrutura com serviços médicos;
Também houve críticas:
- Faltaram análises mais profundas sobre a conjuntura social e os impactos do capitalismo no nosso dia-a-dia;
- As discussões e o próprio fórum foram muito fragmentados;
- No Fórum continua havendo uma hierarquização de lutas e visões;
- Saímos daqui sem uma agenda política clara.
Os números do Fórum Social Mundial
O Fórum Social Mundial (FSM)- 10 Anos – Grande Porto Alegre reuniu 35 mil pessoas em 915 atividades no Rio Grande Sul. Ao todo foram:
27.350 Inscritos (Geral)
35.000 participantes nas atividades
915 Atividades (Conferências, Seminários e Oficinas)
15,1% dos participantes estrangeiros
Total de 39 países presentes
59,3% de inscritos mulheres
40,7% de inscritos homens
34% com renda inferior a U$ 500
12% com renda acima de U$ 2.500
27 atividades culturais (shows, teatros, mostras, saraus)
112 músicos (nacionais e internacionais)
250 jornalistas credenciados – de 15 países




