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Ato público encerra 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil

O fim da caminhada de Campinas a São Paulo representa o fortalecimento da luta feminista e contribui para a integração dos movimentos sociais no país, tendo a solidariedade mundial como um dos valores. A Marcha percorreu, ao todo, 116 Km em 10 etapas. A Kizomba reproduz as infornações enviadas diretamente pelas marchantes. As matérias são publicadas originalmente no site www.sof.org.br/acao2010/ (foto de Daniela Carrasco)

09/03 (Terça – Feira) - Valinhos

marcha campinasA Marcha Mundial das Mulheres (MMM) tomou a rodovia Anhanguera e chegou a Valinhos nesta terça-feira (dia 9), após um ato de lançamento vitorioso em Campinas. As duas mil caminhantes que participam da 3ª Ação Internacional da MMM no Brasil, vindas de todos os estados do país, foram recebidas em Valinhos pelas militantes locais com chuva de pétalas de rosas e distribuição de pães, uma alusão à Marcha Pão e Rosas, ocorrida em 1995 no Canadá, que inspirou o movimento.

 

Muitas militantes viajaram três dias de ônibus para participar da ação. Este é o caso das 350 mulheres que vieram do Rio Grande do Norte. Nem por isso elas chegaram a Campinas cansadas. Animação e irreverência tomaram conta do Largo do Rosário, no centro da cidade, onde ontem às 17h aconteceu o início da caminhada, marcando as comemorações do Dia Internacional de Luta das Mulheres. A Fuzarca Feminista (grupo de percussão da MMM) alegrou o ato com muito batuque e deu ritmo ao lema do movimento: “Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres”.

 

Lourdes Simões, a Lurdinha, do comitê da Marcha em Campinas, lembrou que o ato público no Largo do Rosário representava não apenas o início da caminhada até São Paulo, mas também o coroamento de um longo processo prévio de organização. Ela agradeceu o esforço das militantes de Sumaré, Hortolândia, Paulínea, Valinhos e Indaiatuba, cidades vizinhas a Campinas, que ajudaram a organizar a Marcha na região. Esse processo de auto'-organização e mobilização prévias se repetiu em todos os estados e vai continuar a ocorrer durante toda a 3ª Ação Internacional no Brasil. As caminhantes se dividiram em comissões de trabalho, responsáveis por atividades essenciais ao sucesso da caminhada – entre elas a comissão de segurança, água, comunicação, saúde, formação e cultura, cozinha, creche, água e limpeza.

Diversidade e união

 

Do Largo do Rosário, as militantes da MMM caminharam por quatro quilômetros até o Ginásio Rogê Ferreira, no bairro São Bernardo. Elas ainda tiveram fôlego para realizar reuniões de trabalho das comissões, seguida de uma breve noite de sono. Breve mesmo: às 4h, as mulheres já estavam de pé, enrolando seus colchonetes, revezando-se na fila do banho e do café-da-manhã. Às 6h, conforme o previsto, as bandeiras roxas já tomavam as ruas de Campinas rumo à Valinhos. No acostamento da rodovia Anhanguera, as duas filas de caminhantes revelavam a diversidade do movimento. Chamava atenção, por exemplo, o belo visual das indígenas Tupinambá que vieram da aldeia Serra do Padeiro, no município de Una, na Bahia, e das representantes das comunidades de terreiros. 

 

10/03 (Quarta – Feira) – Vinhedo

Marcha Mundial das Mulheres debate trabalho doméstico e de cuidados

“João, João, cozinha o seu feijão. José, José, cozinha se quiser. Zeca, Zeca, lava sua cueca. Raimundo, Raimundo, limpa esse chão imundo”. Essas palavras de ordem ecoaram nesta quarta-feira (dia 10) entre as duas mil militantes da Marcha Mundial das Mulheres que estão fazendo uma caminhada de luta e formação de Campinas a São Paulo. Hoje, elas andaram 14 quilômetros de Valinhos a Vinhedo, sob o sol forte da manhã.

Os gritos de luta chamando João, José, Zeca e Raimundo tratam de forma bem-humorada de um tema discutido pela Marcha Mundial das Mulheres na tarde anterior, no primeiro dia de atividades de formação da 3ª Ação Internacional no Brasil, ainda em Valinhos. As caminhantes se dividiram em quatro rodas de conversa para debater o trabalho doméstico e de cuidados, a partir de quatro questões-guia: como você vê o trabalho doméstico e de cuidados? Como essa realidade de apresenta na casa de cada uma? Mudou algo nesta rotina depois que você começou a participar do movimento feminista? Como imagina que encontrará sua casa quando você retornar após o dia 18?

Sônia, pescadora na Bahia, contou que na beira do rio São Francisco a mulher trabalha muito mais que o homem. “Enquanto ela limpa o peixe, prepara comida, cuida de menino, o marido está na rede dormindo”, afirmou a militante. Para ela, o machismo parece vir de nascença: Sônia ajudou a criar nove irmãos e nenhum deles tinha qualquer participação nos trabalhos domésticos. “Tive sete filhos, mas nunca deixei de fazer nada por causa deles nem do marido, porque eu ganhava meu próprio dinheiro.Quando eu me preparava para sair e meu marido reclamava que estava com dor de cabeça, eu dizia logo para ele tomar um comprimido e pronto. Que mais eu posso fazer? Não sou médica!”, gracejou a pescadora.

Neusa, do Rio Grande do Sul, lembrou que as pessoas tendem a naturalizar a responsabilidade das mulheres pelo trabalho doméstico e pelos cuidados com os familiares, sem perceber que essa obrigação é socialmente imposta. Fabiana, do Rio Grande do Norte, concordou e acrescentou que também, de forma quase inconsciente, muitas mulheres reproduzem a divisão sexual do trabalho na criação dos filhos. A mineira Sueli deu um depoimento que reforçou a triste ironia de a opressão sexista estar arraigada nas próprias oprimidas: ela contou que durante a faculdade, mesmo quando já morava só, tinha dificuldade de passear nos fim-de-semana, porque desde pequena aprendeu que sábado era dia de faxina.

“Além da divisão igualitária do trabalho doméstico entre homens e mulheres, nossa luta é também para que haja mais serviços públicos, como creches gratuitas de qualidade. Assim homens e mulheres poderão trabalhar e estudar”, defendeu Iolanda, militante de São Paulo. Ela afirmou ainda que “não existe libertação individual, toda libertação é coletiva”.

As discussões nos grupos sobre trabalho doméstico e de cuidados, de fato, mostraram que a autonomia das mulheres se fortalece quando o processo de sua conquista é coletivo. Genoveva, militante da Marcha no Rio Grande do Norte, por exemplo, enfrentou opressão do marido logo que eles se casaram. “Ele, que se virava só, deixou de fazer qualquer atividade na casa. Mas eu fui trabalhar fora, entrei para o movimento de mulheres e, aos poucos, a postura dele está mudando. Hoje cedo ele já me telefonou para perguntar como está a Marcha, para demonstrar solidariedade”, alegrou-se a militante.

 

11/03 (Quinta – Feira) – Louveira

Na marcha de Vinhedo a Louveira, mulheres destacam o combate ao agronegócio

Um batuque fúnebre abriu nesta quinta-feira (11) o terceiro dia de caminhada da Marcha Mundial das Mulheres pela rodovia Anhanguera. Após terem andado 11 quilômetros entre Campinas e Valinhos na segunda-feira e 14 quilômetros entre Valinhos e Vinhedo ontem, as duas mil militantes que participam da 3ª Ação Internacional venceram com facilidade os oito quilômetros que separam Vinhedo de Louveira. O silêncio inicial, marcado pelo toque ritmado da Fuzarca Feminista, era uma homenagem às mulheres assassinadas no mundo inteiro e um sinal de apoio às feministas do México, que neste mês lançaram uma campanha contra o feminicídio. 

Seguindo o revezamento das delegações, hoje foram as caminhantes do Distrito Federal e do Tocantins que iniciaram a Marcha. As palavras de ordem puxadas por elas destacaram o combate à corrupção e a luta pela defesa do Cerrado, da agricultura familiar e da reforma agrária. A principal porta-voz da bancada ruralista no Congresso Nacional foi lembrada por diversas vezes pelas tocantinenses, que cantaram: “Você não quer, nem mesmo eu, ouvir falar da Kátia Abreu”. 

Atividades de formação 

Os dez painéis de debates simultâneos que aconteceram ontem durante o período de atividades de formação (das 16 às 19h), em Vinhedo, representaram bem a diversidade de temas e de culturas que marca a Marcha Mundial das Mulheres. Os assuntos discutidos foram economia solidária e feminista; saúde da mulher e práticas populares de cuidado; sexualidade, autonomia e liberdade; educação não sexista e não racista; mulheres negras e a luta anti-racista; mulheres indígenas; a mídia contra-hegemônica e a luta feminista; a mercantilização do corpo e da vida das mulheres; prostituição; mulheres, arte e cultura. 

Olga Macuxi, de Roraima, compartilhou a experiência das mulheres guerreiras que participaram da luta pela homologação da Raposa Serra do Sol e falou sobre o processo de organização do movimento de mulheres indígenas. “A OMIR [Organização de Mulheres Indígenas de Roraima] iniciou uma campanha de conscientização contra o álcool nas aldeias. A bebida está ligada a maior parte dos casos de violência contra mulheres e prostituição”, contou Olga. Além das indígenas de Roraima, também estão marchando mulheres do povo Sateré-Maué (do Amazonas) e do povo Tupinambá (da Bahia). 

Na tenda em que se reuniram as mulheres negras, a militante mineira Maria Teresa destacou a importância do movimento de mulheres incorporar a luta anti-prisional. “Dos 46 mil presidiários de Minas Gerais, 38 mil são negros. Para as presas, os maus tratos são ainda mais intensos. Ao contrário dos homens, elas não têm direito a visita íntima e, se forem lésbicas e se beijarem, passam uma semana na solitária. Se forem pegas em algum contato mais íntimo, o castigo dura três meses”, afirmou ela. “Tenho quatro filhos biológicos e mais quatro adotivos. Um deles começou a roubar. A sociedade nunca me agradeceu pelos sete cidadãos responsáveis que criei, mas estou cansada de escutar ´Só podia ser preta, por isso o filho é ladrão`”, desabafou Maria Teresa. 

O caráter de resistência política da cultura popular foi o eixo do debate sobre mulheres, arte e cultura, que contou com a presença de uma convidada especial: a cantora e compositora Ellen Oléria. “Com a feijoada, as mulheres negras conseguiram transformar restos no prato mais famoso da culinária brasileira”, comemorou a cantora. “Com nossa luta, temos muitas conquistas. Ter uma protagonista negra na novela das oito, por exemplo, é algo positivo. , Sem entrar no mérito do conteúdo, pelo menos agora uma menina negra não vai mais perguntar para a mãe se pode ser modelo, porque ela já vai saber que pode, sim”, completou Ellen.     

Na tarde de hoje, um grande debate único sobre o trabalho das mulheres e a autonomia econômica reunirá as duas mil caminhantes. A socióloga Helena Hirata vai contribuir com a discussão. Amanhã, às 6h, a Marcha Mundial das Mulheres volta às ruas, rumo a Jundiaí. O destino final é São Paulo, no dia 18 de março.

 

12/03 (Sexta – Feira) – Jundiaí

Militantes seguirão em marcha pela autonomia econômica das mulheres

Nesta sexta-feira (12) a Marcha Mundial das Mulheres chegou a Jundiaí, após uma caminhada de 12 quilômetros desde Louveira. Desta vez, quem abriu a fila dupla de duas mil militantes vindas de todos os estado brasileiros foi a região amazônica. Ao ritmo do boi bumbá de Parintins, as mulheres do Amazonas entoaram cantos de combate à pedofilia e ao tráfico de mulheres presentes na região Norte.

As militantes da Marcha estão caminhando desde segunda-feira, quando, após o ato público de lançamento da 3ª Ação Internacional, andaram quatro quilômetros pelas ruas de Campinas. Na terça, elas tomaram a rodovia Anhanguera e caminharam 11 quilômetros até Valinhos; na quarta, foram mais 14 quilômetros até Vinhedo e ontem, oito quilômetros até Louveira.

Nesta última cidade, à tarde, aconteceu o primeiro momento de debates que reuniu todas as marchantes num só espaço (as atividades de formação anteriores aconteceram em grupos de trabalho). Nalu Faria, da coordenação da Marcha, aproveitou para distribuir a plataforma de ação, com o detalhamento dos quatro eixos de luta: pela paz e desmilitarização, por um mundo sem violência e com direito à auto-determinação das mulheres, em defesa dos bens comuns e serviços públicos (contra a privatização dos serviços públicos e da natureza) e pela autonomia econômica das mulheres.

Este último eixo foi o tema da atividade de formação aglutinadora, que contou com a presença da socióloga Helena Hirata, de Carmem Foro, representante da Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), e de Rosane Silva, representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT). O debate foi aberto com o show musical das jovens Gerusa e Tuziléa, militantes da Marcha no Rio Grande do Sul.

Helena Hirata vive há 40 anos na França, para onde se mudou quando foi exilada pela ditadura militar. Ela contou às militantes da Marcha que justamente neste 8 de Março, quando começava a caminhada delas de Campinas a São Paulo, foi que enfim obteve oficialmente sua anistia. A socióloga esteve recentemente no Japão e ficou impressionada com o depoimento de moradoras de rua de lá. “Elas me contaram que eram abordadas à noite por policiais preocupados, que lhes perguntavam ´Por que vocês estão neste desconforto? Por que não se prostituem para ter renda?”, narrou Helena. “O fato é que na praça onde as japonesas dormiam havia muitos homens, mas ninguém lhes perguntava por que eles não vendiam seu corpo para sair da miséria”, completou ela. 

Segundo Helena, a autonomia econômica da mulher, em termos marxistas, pode ser traduzida como emancipação. “A luta socialista está vinculada à luta feminista. Antes era comum as mulheres ouvirem dos militantes de esquerda: ´Companheiras, vamos lutar juntas, primeiro a gente transforma o sistema, depois cuida da situação da mulher´. Agora está ultrapassada essa dicotomia e a Marcha Mundial das Mulheres é o melhor exemplo de uma luta geral contra o capital, mas que reconhece a especifidade da opressão contra as mulheres”, avaliou a socióloga. Carmem Foro lembrou que nos espaços de militância mistos, ainda há uma resistência grande em incorporar as questões de gênero. “No discurso, essa dicotomia parece superada. Mas na prática eu canso de ouvir na Contag companheiros me perguntando por que nós mulheres estamos querendo dividir a luta”, lamentou a militante.


Trabalhadoras domésticas

 Apesar dos avanços conquistados pelo movimento feminista, especialmente nos últimos cem anos, as mulheres ainda estão a léguas de distância da real autonomia econômica. Para se ter certeza disto, destacou Helena Hirata, basta olhar para a situação da categoria mais numerosa no Brasil: as trabalhadoras domésticas, que no país somam 6,8 milhões de mulheres. “Elas não têm direito ao FGTS [Fundo de Garantia por Tempo de Serviço], seguro desemprego, pagamento de horas extras nem indenização por acidente de trabalho. E o sindicato que as representa, em São Paulo, ainda se chama Sindicato dos Trabalhadores Domésticos”, recordou a palestrante. 

Segundo os dados mais recentes do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), referentes a 2009, 30% do conjunto de trabalhadoras ocupadas está em situação de precariedade. Em relação aos homens, esse percentual cai para 8,5%. “Nosso grande desafio é lutar pelos direitos daquelas que estão no mercado informal. Além das trabalhadoras domésticas, outra categoria precária composta majoritariamente por mulheres é a das consultoras de venda. A qualquer congresso que você vá, há militantes vendendo Natura, Avon, Herba Life”, destacou Rosane Silva.


Beijaço

A chegada ao Centro Educacional Aramis Polis, local do alojamento da Marcha Mundial das Mulheres em Jundiaí, foi marcada por uma manifestação bem-humorada contra a lesbofobia. Casais de mulheres fizeram uma roda e se beijaram ao som dos batuques. “O beijaço é um ato político de ação direta. Pode até chocar, mas a idéia é naturalizar algo que já é natural. Isso que vocês estão vendo é realidade na vida de muitas mulheres, que sofrem preconceito”, discursou Valda Neves, militante da delegação do Rio Grande do Sul.

Nesta tarde, os debates das 16h às 19h serão sobre soberania alimentar, justiça ambiental e luta por território. Entre os pontos de discussão previamente definidos, estão: a resistência das mulheres contra o agronegócio, as transnacionais e a destruição ambiental, e as alternativas no campo da produção, comercialização e consumo. Amanhã, a Marcha segue para Várzea Paulista, onde haverá um grande ato público com lançamento de livro e show de Leci Brandão.  

 

13/03 (Sábado) – Várzea Paulista

Várzea Paulista acolhe e é acolhida com entusiasmo pela Marcha Mundial das Mulheres

Com direito a plantação de árvores e saudações dos moradores, as duas mil militantes da Marcha Mundial das Mulheres que desde o dia 8 de marco caminham de Campinas a São Paulo chegaram neste sábado a Várzea Paulista, onde à tarde realizam ato público com lançamento de livro e show da cantora Leci Brandão. Elas saíram às 6h da manhã de Jundiaí e durante quatro horas caminharam por dentro da cidade, até chegarem ao Centro da Cidadania, em Várzea Paulista.

O fato do trajeto de hoje ter sido pelos bairros, não pelo acostamento da rodovia Anhanguera, melhorou significativamente a qualidade da reação das pessoas que estavam no entorno. No lugar dos preconceituosos gritos de “ Vai trabalhar” ou “Vai lavar louça” de alguns motoristas, palmas e acenos de solidariedade dos moradores. Os gritos chauvinistas, aliás, costumam ser respondidos em uníssono pelas militantes com as palavras de ordem:  “Se cuida, se cuida, se cuida, seu machista. A América Latina vai ser toda feminista”.

A plantação de ipês roxos em um trevo de Várzea Paulista, a cor do movimento feminista, simboliza um agradecimento da Marcha à excelente acolhida da cidade. Além de representar um dos quatro eixos de luta da 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres: contra a privatização da natureza e dos serviços públicos. Os outros três eixos são: pela autonomia econômica das mulheres, pela paz e desmilitarização, contra todas as formas de violência e pelo direito à autodeterminação das mulheres.

Quem abriu a Marcha hoje foram as delegações do Rio Grande do Norte (a mais numerosa, com 350 participantes), do Piauí e de Alagoas. As piauienses deram mostra de que a união na diversidade (característica marcante da Marcha) não esconde as especificidades e até reascende o orgulho regional: elas começaram a caminhada cantando o hino do seu estado.

No ato público desta tarde, que se estenderá pela noite, haverá o lançamento do livro “As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres”, de autoria da historiadora espanhola Ana Isabel Álvarez González. A publicação recupera o sentido político do 8 de março, comemorado há exatos cem anos, fruto da luta das trabalhadoras socialistas. Haverá também arrecadação de recursos para as organizações de mulheres do Haiti, que sofrem não apenas com os desastres naturais, mais principalmente com o imperialismo, a miséria e o militarismo. Encerrando o ato, show da cantora militante Leci Brandão.

Soberania alimentar e energética

Nívea Regina da Silva, da direção do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), defendeu na atividade de formação da tarde de ontem, ainda em Jundiaí, que a luta por soberania alimentar e energética é uma estratégia estruturante da Marcha Mundial das Mulheres. “As sementes, a água e a terra devem estar em controle de quem produz os alimentos, não das multinacionais do agronegócio”, afirmou Nívea. “A gente defende um modelo de produção camponesa e familiar, que privilegia o consumo local e ajuda até a combater as mudanças climáticas. Temos que afirmar a agroecologia como projeto político que ajuda a construir relações sociais mais justas, inclusive entre homens e mulheres”, completou a dirigente do MST.

Juliana Malerba, representante da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, trouxe uma reflexão sobre o aporte da luta ambiental no movimento feminista. Ela lembrou que o discurso da modernização ecológica tenta resolver a crise ambiental sem questionar o modelo de produção, com ferramentas de mercado, em um discurso conciliador que esconde conflitos sociais latentes.  “O movimento feminista de esquerda ajuda a politizar o discurso ambiental, mostrando que há diferentes modos de se apropriar do meio ambiente. A organização das quebradeiras de coco babaçu no Brasil é um exemplo disto”, contou a palestrante.

As mulheres que lutam pelo acesso à terra enfrentam a resistência do latifúndio, mas também da opressão patriarcal. “No Brasil, o percentual de terras em nome das mulheres, seja como únicas titulares ou em conjunto com um homem, está estimado entre 7 a 9% do total. E esse valor baixo ainda é fruto de uma árdua conquista, porque até a Constituição Federal de 1988, as camponesas sequer eram oficialmente reconhecidas”, revelou Isaura Isabel Conte, dirigente do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). “O MMC vem se assumindo como um movimento feminista desde 2004 e desde então vem se perguntando como fortalecer o feminismo em um território historicamente conservador. A autoria de muitas ações que protagonizamos foi atribuída a homens”, lamentou a dirigente.

A antropóloga Emília Lisboa Pacheco, representante da Articulação Nacional de Agroecologia, foi a quarta palestrante do debate, mediado pela militante paraense Tatiana Oliveira. “As mulheres são historicamente responsáveis pela produção de alimentos e pelo manejo da biodiversidade. O milho, no México, e a batata, nos Andes, que hoje possuem milhares de espécies alimentares, sequer eram comestíveis. Essa riqueza alimentar está ameaçada pelas tecnologias transgênicas e pelo latifúndio. A bandeira de limitar o tamanho da propriedade no Brasil é atual”, defendeu a estudiosa.

Amanhã, domingo, a Marcha Mundial das Mulheres segue para Cajamar. Lá haverá o encontro das caminhantes com as 75 militantes que estão trabalhando na Comissão de Cozinha e garantindo, por meio do trabalho coletivo, a refeições das companheiras que estão marchando.  

 

14/03 (Domingo) – Cajamar

Caminhantes da Marcha Mundial das Mulheres encontram-se com as militantes da comissão de cozinha

Neste domingo (dia 14), no sétimo dia da 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, as duas mil caminhantes que saíram de Campinas na segunda-feira (8 de março) enfim se encontraram com as 75 militantes (na foto ao lado de Daniela Carrasco) que trabalham fixas na Comissão de Cozinha, preparando suas refeições. Foi um reencontro animado, na Cooperinca, em Cajamar, no Km 46,5 da rodovia Anhanguera, após andarem cerca de 10 quilômetros desde Várzea Paulista. 

A tarde e a noite anteriores, em Várzea Paulista, já tinham sido marcadas pelo clima de festa, com lançamento de livro e show da cantora Leci Brandão. A publicação As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, de autoria da historiadora espanhola Ana Isabel Álvarez González, recupera o sentido político do 8 de março, principal data da agenda feminista. Em 2010, quando o Dia Internacional de Luta das Mulheres está completando 100 anos e o mercado tenta transformá-lo em mais uma ocasião para vender produtos, o ato público reforçou as raízes socialistas desta data de lutas. 

É comum a crença de que a origem do 8 de março está ligada a um incêndio de uma fábrica têxtil nos Estados Unidos, no qual muitas operárias morreram queimadas. Esta tragédia infelizmente aconteceu de fato, mas o Dia Internacional de Luta das Mulheres surgiu antes dela. Ele nasceu em 1910, na Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada na Dinamarca. O direito ao voto era, então, a principal reivindicação das mulheres em grande parte do mundo. As militantes socialistas nos Estados Unidos, por exemplo, já haviam organizado um dia de mobilização pelo voto em anos anteriores. Foi essa data que serviu de inspiração para que as mulheres reunidas na Europa aprovassem a proposta de um dia de luta unificado internacionalmente. 

Entre 1911 e 1920, as comemorações do Dia Internacional de Luta das Mulheres ocorreram em dias diferentes a cada ano, variando também em cada país. Foram as manifestações das mulheres na Rússia, no dia 8 de março de 1917 (dia 23 de fevereiro, segundo o antigo calendário russo) que motivaram a adoção da data para comemoração unificada, alguns anos depois. Pouca gente sabe, mas a greve das operárias russas e seus protestos contra a falta de alimentos foram fundamentais para dar início à Revolução Socialista de 1917, da qual surgiu a já extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

Cultura como ação política

Nesta tarde de domingo, as militantes da Marcha Mundial das Mulheres debaterão a luta contra a violência sexista, com painéis temáticos sobre: a violência doméstica e sexual e as políticas de erradicação dela; o tráfico de mulheres e a migração; e os processos de luta dos movimentos sociais contra a violência sexista. A programação inclui ainda oficina de Wen-do, as práticas feministas de autodefesa e uma oficina para a confecção de vestidos, com a artista Biba Rigo, autora do desenho presente nas camisas, cartazes e adesivos da 3ª Ação Internacional no Brasil. 

Quem pensou que a oficina é para costurar vestidos comuns, enganou-se. Orientadas por Biba, as militantes confeccionarão roupas gigantes, que serão usados por duas grandes bonecas apelidadas carinhosamente de Caminhantes. São como bonecas de Olinda, que em outubro seguirão para Kivu do Sul, no Congo, para representar o Brasil no encerramento da 3ª Ação Internacional, em um encontro de feministas do mundo inteiro. 

As atividades de formação culturais do domingo não param por aí. À noite, além da exibição de fotos e vídeos da primeira semana da caminhada entre Campinas e São Paulo, haverá apresentação da Kiwi Companhia de Teatro. O grupo mostrará trechos do processo de pesquisa da peça Carne, que trata da opressão capitalista e patriarcal. Amanhã, as militantes seguem cedo para Jordanésia.

 

15/03 (Segunda – Feira) – Jordanésia

Caminhada de Campinas a São Paulo completa uma semana. As duas mil militantes debatem nesta tarde a legalização do aborto.

 

Já faz exatamente uma semana desde que as duas mil militantes da Marcha Mundial das Mulheres saíram de Campinas, no dia 8 de março, rumo a São Paulo, onde chegarão no próximo dia 18. Nesta segunda-feira (dia 15), elas saíram da Cooperinca, no Km 46,5 da rodovia Anhanguera, duas horas mais tarde do que de costume, às 8h. Ainda assim, conseguiram chegar ao Boiódromo de Jordanésia, distrito de Cajamar, às 10h, percorrendo pouco mais de 8 quilômetros. O atraso aconteceu por causa da chuva: depois de sete dias de caminhada sob um sol inclemente, as militantes enfim estrearam as capas de chuva distribuídas no primeiro dia de Marcha.

Quem puxou a Marcha hoje foi a delegação do Pará. Na chegada ao Boiódromo, o show ficou por conta da delegação do estado vizinho, Maranhão, que apresentou danças de ritmo afro. De início, as mulheres do movimento negro, algumas delas quilombolas, dançaram quadrilha. Em seguida, tambor de criola, dança oficialmente reconhecida como patrimônio histórico imaterial. Logo depois, veio a pajelança, marcada pelo batuque de terreiro e, por fim, o bumba-meu-boi. “Nós fazemos questão de mostrar nossa cultura às mulheres daqui, que vêm de todos os estados do Brasil, porque no Maranhão ela não está sendo valorizada”, contou a militante maranhense Maria Tereza Bittencourt. 

Maternidade deve ser opção, não destino imposto

A legalização e descriminalização do aborto foram as bandeiras de luta da Marcha Mundial das Mulheres destacadas nesta segunda-feira (15). Em Jordanésia, distrito de Cajamar, as duas mil militantes que estão caminhando de Campinas a São Paulo debateram das 18h às 21h o tema “Maternidade como opção, não como destino”.


A atividade de formação começou com uma dinâmica apelidada de cochicho. Em grupos, as mulheres conversaram durante 20 minutos a partir de três perguntas provocadoras: Como elas vivem a maternidade (e/ou a possibilidade de engravidar)? Como encaram o aborto? Como têm acesso a métodos de prevenção da gravidez? A seguir, as primeiras dez inscritas sintetizaram para a plenária a discussão do grupo no qual estavam.

Os primeiros relatos foram bem duros. “Aborto é crime. Sou totalmente contra”, sentenciou a militante Luciene, de Monte Alegre (MG). Diva, de Teresina (PI) mostrou-se um pouco mais flexível: “Sou a favor nos casos previstos em lei: quando a mulher foi estuprada ou corre risco de vida”.

“Cadê o homem que engravidou? Por que o crime é da mulher que abortou?”, cantaram várias militantes presentes no debate, a este momento bastante acalorado. “A gente sabe que tem muita gente que se diz contra já abortou, mas não admite. Tem clínica clandestina de primeiro mundo na Raposo Tavares [rodovia paulista], atrás de uma borracharia, custa R$ 6 mil reais para interromper a gravidez”, declarou Vanda, militante da Marcha em São Paulo. “Quem tem dinheiro, faz aborto com segurança. Quem não tem, corre risco de vida”, concordou a amazonense Maiara.

“A Marcha Mundial das Mulheres é provocativa, nos faz discutir um tema tabu na sociedade, indo além da posição do favorável ou contrária. O aborto é uma questão de saúde pública”, opinou a militante Izalene, que já foi prefeita de Campinas (SP). “Diante de uma gravidez, para qualquer opção (aborto ou maternidade), deve haver políticas públicas que garantam os direitos das mulheres a uma vida digna”, ponderou a mineira Ana Paula.

Após as dez falas iniciais da plenária, houve uma rápida exposição de três palestrantes: Tatau Godinho, da diretoria da SempreViva Organização Feminista (SOF), Ana Carolina Pieretti, médica ginecologista e militante da Consulta Popular, e Fabíola Paulino, diretora de mulheres da União Nacional dos Estudantes.  Tatau abriu essas falas mais gerais esclarecendo que a Marcha Mundial das Mulheres não propõe que o aborto seja um método anticoncepcional. Ela também desmistificou a idéia de que são as mulheres jovens, desinformadas e irresponsáveis que praticam aborto. “Como o aborto é criminalizado, há poucos dados sobre sua prática. Mas até onde a gente saiba, a maioria das mulheres que abortam são casadas e já têm filhos”, contou a diretora da SOF.

“Ter filho é a única decisão da nossa vida da qual a gente não pode voltar atrás. Então a maternidade é algo sério, que não pode ser tratado de forma automática”, alertou Tatau. “Quando dizemos que consideramos o aborto um crime, precisamos parar e refletir o que isso significa. Queremos que as mulheres que abortaram sejam julgadas, condenadas e presas? E por que só elas e não os homens que as engravidaram?”, provocou a militante da SOF.

A médica ginecologista Ana Carolina trabalha em um posto do Programa de Saúde da Família (PSF) na comunidade de Pium, no interior do Rio Grande do Norte. “O posto onde atuo cobre uma área de 2 mil moradores, mas eu só recebo uma pílula do dia seguinte por mês. Também não tenho injeções de hormônio nem pílulas anticoncepcionais suficientes para todas as interessadas que me procuram. E lá muitas mulheres só conseguem que o homem use preservativo, no máximo, em relações extraconjugais”, revelou Carol, como é conhecida.

Descriminalizar o aborto e oferecer métodos seguros de se interromper a gravidez na rede pública de saúde evitaria a morte de milhares de brasileiras, todos os anos. De acordo com Carol, entre 1986 e 1991, quando o remédio Citotec (para úlcera) foi vendido livremente nas farmácias do Brasil, suas vendas triplicaram e o número de mulheres que adoeceram e decorreram em função do aborto caiu. Quando a venda do Citotec foi proibida, em função de seu uso como abortivo, as mortes resultantes do aborto aumentaram em cerca de 50%.

Carol também explicitou o preconceito de gênero presente nesta discussão: “Os homens jovens vivenciam 2,5 vezes mais a experiência do aborto, em média, em suas vidas, do que as mulheres. Mas a indústria farmacêutica, para eles, faz o Viagra. E para as mulheres, anticoncepcional”. A fala de Fabíola, da UNE, foi na mesma direção: “Falar de maternidade é falar de sexualidade. A mulher jovem tem direito de viver livremente sua sexualidade, sem repressão”.

 

16/03 (Terça – Feira) – Perus

Hoje (dia 16), a Marcha Mundial das Mulheres chegou ao Km 26 da rodovia Anhanguera, no Centro Santa Fé, em Perus, onde à tarde haverá um debate sobre paz e desmilitarização. A atividade contará com a presença ilustre da médica cubana Aleida Guevara, filha do revolucionário Che Guevara.

A caminhada de Jordanésia a Perus durou pouco mais de quatro horas, das 6h10 às 10h25. Este foi o tempo no qual as duas mil militantes percorreram os 14,6 quilômetros que separam o Boiódromo, o alojamento anterior, do Centro Santa Fé, local do próximo pernoite. Quem puxou a Marcha nesta terça-feira foram as delegações da Paraíba, Goiás e Mato Grosso do Sul. Amanhã, as caminhantes andarão mais 13 quilômetros até Osasco, última parada antes do destino final, em São Paulo.

Paz e desmilitarização

Ainda no Centro Santa Fé, a Marcha Mundial das Mulheres debateu paz e desmilitarização. A presença da médica cubana Aleida Guevara, filha do revolucionário cubano Che Guevara, emocionou as militantes, algumas das quais incorporaram o papel de verdadeiras tietes. “É bom estar aqui e conhecer pessoas bem preparadas para a luta, que buscam soluções para os seus problemas”, declarou a militante cubana, agradecendo a acolhida calorosa.

A maioria dos intelectuais cubanos é composta por mulheres. Elas representam, por exemplo, 63,8% dos médicos gerais e 65% dos graduados em nível superior. Em Cuba, o aborto é legalizado e a licença maternidade dura 12 meses, podendo ser dividida entre a mãe e o pai.  “Eu nasci em um país socialista, onde a mulher é tratada com respeito e igualdade de direitos”, comemorou Aleida. “Não podemos dar receitas, nem dizer o que vocês precisam fazer. Mas podemos mostrar nossa realidade e dizer que, se um país pequeno e pobre como o nosso conseguiu, o Brasil também consegue”, incentivou a cubana.

Um dos itens da plataforma de reivindicações da Marcha Mundial das Mulheres é a retirada das missões militares da Organização das Nações Unidas (ONU) do Haiti e da República Democrática do Congo. “A presença militar da ONU deve ser emergencial e rápida. No Congo, as tropas já estão há dez anos, provocando inflação com os salários em dólares dos soldados. O caminho para a paz passa necessariamente pela autodeterminação das mulheres e pela soberania dos povos”, defendeu Miriam Nobre, coordenadora internacional da Marcha.

 

17/03 (Quarta – Feira) – Osasco

 

Esta quarta-feira (dia 17) é o décimo dia da 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil, véspera da chegada a São Paulo e do encerramento com ato público na Praça Charles Miller. Hoje, chegaram a Osasco as duas mil militantes que no dia 8 de março iniciaram em Campinas a grande caminhada de luta e formação. Elas saíram às 6h da manhã do Centro Santa Fé, em Perus, no quilômetro 26 da rodovia Anhanguera, e durante quase cinco horas marcharam 14 quilômetros.

Nos dez dias de caminhada, as militantes já percorreram um total de 108 quilômetros. Desta vez, quem puxou a Marcha foi a delegação de Minas Gerais, que inovou na mística de mobilização. Funcionando como comissão de frente, o grupo de teatro mineiro Obscenas fez uma performance em memória das mulheres brasileiras violentadas e assassinadas.

À medida que a Marcha vai se aproximando da capital paulista, centro do capitalismo brasileiro, cresce a interação crítica com seu entorno. De Perus a Osasco, as duas mil militantes, vindas de todos os estados brasileiros, passaram na frente do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) e do Centro de Distribuição do Grupo Pão de Açúcar. No primeiro, entoaram palavras e cantos de protesto contra a mercantilização do corpo das mulheres e a criminalização dos movimentos sociais, promovida pela mídia comercial brasileira. No segundo, as vaias contra o empresário Antônio Ermírio de Moraes (dono do Grupo Pão de Açúcar) tiveram como pano de fundo a luta por soberania alimentar e pelo fortalecimento da agricultura camponesa e familiar.

Nesta tarde, no Sindicato dos Metalúrgicos, local do alojamento em Osasco, a Marcha fará um debate aberto sobre “integração dos povos como alternativa e o papel do Estado”. Em pauta, uma avaliação dos avanços, limites e desafios para as políticas públicas no Brasil e em nível regional. Amanhã, às 13h, as caminhantes partem com destino ao estádio do Pacaembu, em São Paulo, na frente do qual acontecerá um grande ato público de encerramento desta Ação 2010.

18/03 (Quinta – Feira) - São Paulo

 

Ato público encerra 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil

Após onze dias de caminhada desde Campinas, de onde saíram no dia 8 de março, as duas mil militantes da Marcha Mundial das Mulheres chegam nesta quinta-feira (dia 18) a São Paulo, destino final da 3ª Ação Internacional do movimento. Ao todo, três mil mulheres dos 27 estados brasileiros participaram da chamada Ação 2010, que tem quatro eixos de luta: autonomia econômica das mulheres, paz e desmilitarização, pelo fim da violência sexista e pela defesa dos bens comuns e serviços públicos. 

As militantes andaram, no total, 116 quilômetros, incluindo as entradas nas cidades de Valinhos, Vinhedo, Louveira, Jundiaí, Várzea Paulista, Cajamar e Osasco, além dos distritos de Jordanésia e Perus. Elas caminhavam pela manhã e, à tarde, realizavam atividades de formação. A de ontem, em Osasco, foi um debate sobre a integração dos povos e o papel do Estado. 

“Lutamos pelo aumento do salário mínimo, pela construção de creches públicas de qualidade, pela legalização do aborto. São demandas que se chocam com os valores da sociedade patriarcal, racista e capitalista na qual vivemos. Por isso nossa batalha é árdua, é transformadora, já que o neoliberalismo na década de 1990 conquistou corações e mentes”, analisou Vera Soares, militante da Marcha e do campo da economia solidária. 

A luta contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e contra a Organização Mundial do Comércio (OMC) uniu diversos movimentos sociais na resistência ao neoliberalismo. “As mulheres souberam aproveitar bem esse momento para se fortalecerem. A partir daí, ganhou visibilidade o projeto de integração dos povos latino-americanos”, relatou Nalu Farias, da coordenação da Marcha e da Sempreviva Organização Feminista (SOF). Ela lembrou também que na América Latina nasceram conceitos que atualmente reanimam a luta socialista mundial, como soberania alimentar (gestado pelo movimento camponês) e bem viver (fruto dos movimentos sociais da Bolívia e do Equador). “Tivemos a eleição de presidentes de esquerda em vários países da América Latina. Foi um sinal de que as pessoas queriam dar um basta ao neoliberalismo. Representou um avanço, mas também um desafio: obrigou-nos a criar espaços de diálogo com os governos”, avaliou Nalu. 

O risco da cooptação dos movimentos sociais e do aparelhamento do Estado foi lembrado respectivamente por Ângela Silva, do movimento de moradia de São José dos Campos (SP), e por Terezinha Vicente Ferreira, da Articulação Mulher e Mídia, ambas militantes da Marcha. “Um exemplo de solidariedade regional foi o Brasil não ter reconhecido o governo golpista de Honduras. Mas eu me pergunto, caso o golpe tivesse sido aqui, se teríamos persistido na resistência a ele, como fez o povo de Honduras. Receio que não, porque a esquerda do Brasil está esfacelada e bastante desacreditada”, lamentou Ângela. “O Estado, tal qual o conhecemos, historicamente foi construído pela imposição. E a disputa para ocupar seus espaços e cargos tem dividido os movimentos sociais brasileiros”, argumentou Terezinha. 

Tatiana Berringer, da Assembléia Popular, destacou a importância de fazer frente a este esfacelamento da esquerda e acumular poder popular, a fim de transformar a sociedade. “Acredito que a Marcha Mundial das Mulheres seja um exemplo deste acúmulo”, comemorou a militante. Elaine, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra na Bahia (MST-BA), concordou com a avaliação: “Nós do MST sabemos bem, na pele, como dói dificuldade de integração com a sociedade. A Marcha Mundial das Mulheres cumpre um pouco esse papel de integração dos movimentos”. 

 Seguiremos em marcha

O lema da 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres é “Seguiremos em marcha, até que todas sejamos livres”. Por isso, nem no Brasil, nem nos outros 51 países que realizaram atividades no primeiro período de lutas (de 8 a 18 de março), esta quinta-feira significa um ponto final. No ato público em São Paulo, marcado para às 16h na Praça Charles Miller (ao lado do estádio do Pacaembu), estarão presentes, por exemplo, as bonecas Caminhantes, construídas pelas militantes que participam da Ação 2010. Elas representarão o país no segundo período de lutas, de 7 a 17 de outubro, na República Democrática do Congo. 

Confira as atividades do dia a dia da Marcha!

 

08/03 (Segunda – Feira) – Campinas

16h - Lançamento da 3ª Ação Internacional da MMM, marcando os 100 anos do Dia Internacional de Luta das Mulheres.

Local do ato – Largo do Rosário
Local do alojamento: Ginásio Rogê Ferreira - Av. João Batista Morato do Canto Bairro s/n São Bernardo (Próx. Hospital Mario Gatti).

 

09/03 (Terça – Feira) - Valinhos

16h as 19h - Trabalho doméstico e de cuidados: um debate sobre a sustentabilidade da vida humana, seguida de debate sobre a história da Marcha Mundial das Mulheres e suas lutas.

Local: Parque do Figo ( Parque Municipal Monsenhor Bruno Nardini) Rua Dom João VI, s/nº - Jardim Planalto.

 

10/03 (Quarta – Feira) – Vinhedo

16h às 19h - Painéis temáticos sobre

  • Economia Solidária e Feminista;

  • Saúde da mulher e práticas populares de cuidado;

  • Sexualidade, autonomia e liberdade;

  • Educação não sexista e não racista;

  • Mulheres negras e a luta anti-racista;

  • Mulheres indígenas;

  • A mídia contra-hegemônica e a luta feminista;

  • A mercantilização do corpo e da vida das mulheres;

  • Prostituição;

  • Mulheres, arte e cultura.

Local: Parque Jayme Ferragut - Estrada da Boiada, s/n;

 

11/03 (Quinta – Feira) – Louveira

 

16h às 19h - Trabalho das mulheres e autonomia econômica, com a presença de Helena Hirata.

Local: Área de Lazer do Trabalhador (Parque da Uva) Rodovia Romildo Prado, km 1 F: 19- 38781357

 

12/03 (Sexta – Feira) – Jundiaí

 

16h às 19h - Soberania Alimentar, justiça ambiental e luta por território. Mesas de debate simultâneas sobre a resistência das mulheres ao agrongeócio, às transnacionais e a destruição ambiental, e as alternativas no campo da produção, comercialização e consumo.

Local: Centro Educacional Aramis Poli - R. Benedito de Godoy Ferraz, 508

 

13/03 (Sábado) – Várzea Paulista

16h - Ato público com lançamento de livro sobre o histórico do 8 de março, debate sobre o histórico do movimento feminista e show cultural.

Local: Av. Projetada ao lado do espaço Cidadania e da Prefeitura.

 

14/03 (Domingo) – Cajamar

16h às 19h - A luta contra a violência sexista. Painéis simultâneos sobre a violência doméstica e sexual e as políticas de erradicação; tráfico de mulheres e migração; os processos de luta dos movimentos sociais contra a violência sexista. Oficina de Wen-do: práticas feministas de autodefesa.

Local: Rodovia Anhanguera, Km 46,5. Caixa Postal, 530. Capital Ville. Jordanésia – Cajamar/SP – 11 - 4898.0003

 

15/03 (Segunda – Feira) – Jordanésia

16h às 19h - Maternidade como decisão e não como destino: debate sobre nossas experiências.

Local: Boiódromo - Rua Vereador Joaquim Barbosa, 827 – Cajamar/ SP

 

16/03 (Terça – Feira) – Perus

16h às 19h - Paz e desmilitarização. Debates simultâneos sobre o controle dos territórios, dos povos e das mulheres e a relação disto com a exploração dos bens naturais; criminalização dos movimento sociais e da pobreza no Brasil. Painel sobre a luta pela transformação da sociedade com Aleida Guevara, lutadora cubana, filha de Che Guevara.

Local: Rod. Anhanguera, Km 25,5 s/n - São Paulo – 3911.0191

 

17/03 (Quarta – Feira) – Osasco

16h às 19h - Integração dos povos como alternativa e o papel do Estado. Avaliação dos avanços, limites e desafios para as políticas no Brasil e em nível regional.

Local: Sindmetal – Rua Luiz Rink, 501 - Rochdale - Osasco - SP

 

18/03 (Quinta – Feira) - São Paulo

16h - Encerramento com ato público.

Local: Praça Charles Miller – em frente ao Estádio do Pacaembu.

- Programação cultural: ao longo dos dias, articuladas às atividades de formação, haverá exibição de filmes, música, poesia, teatro e apresentações culturais dos estados.
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